
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
O Mounjaro age em dois receptores hormonais ao mesmo tempo, o GLP-1 e o GIP, enquanto a maioria dos medicamentos da mesma classe age em apenas um. Esses dois hormônios são produzidos pelo próprio intestino depois das refeições e avisam ao cérebro que é hora de parar de comer.
Ao imitar os dois de uma vez, a tirzepatida reduz a fome, prolonga a saciedade e melhora o controle da glicose no sangue. É esse mecanismo duplo que aparece nos resultados: nos estudos clínicos, a perda média chegou a 22,5% do peso corporal em 72 semanas, contra 2,4% de quem recebeu placebo.
A seguir, o que cada um desses hormônios faz no corpo, o que os estudos mostram sobre eficácia e segurança, e o que o tratamento exige na prática.
O que é o Mounjaro e qual seu princípio ativo
O Mounjaro é um medicamento injetável desenvolvido pela Eli Lilly. Inicialmente, foi aprovado pela Anvisa em setembro de 2023 para o tratamento do diabetes tipo 2.
Em junho de 2025, teve seu uso ampliado, com aprovação também para o tratamento da obesidade e do sobrepeso com comorbidades, ou seja, quando o excesso de peso está associado a outras condições de saúde, como hipertensão, colesterol alto ou apneia do sono.
Seu princípio ativo é a tirzepatida, um peptídeo que atua como agonista duplo dos receptores GIP e GLP-1. Em termos simples, isso significa que ela imita dois hormônios naturais do intestino, o peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) e o polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP).
É essa ação combinada que diferencia a tirzepatida de outros medicamentos da mesma classe, como Ozempic e Wegovy, que atuam apenas no receptor de GLP-1.
Como a tirzepatida age no organismo
Em pessoas com obesidade, os sinais hormonais que regulam a fome e a saciedade deixam de funcionar como deveriam. Com isso, mesmo após uma refeição completa, a sensação de fome pode persistir.
A tirzepatida atua justamente nesse ponto, ajudando a restabelecer sinais que o corpo deixou de produzir ou responder de forma adequada. Tudo isso, com a ação do GLP-1 e do GIP.
Funciona assim:
- O GLP-1 estimula a liberação de insulina quando a glicose sobe, inibe o glucagon (hormônio que eleva o açúcar no sangue), retarda o esvaziamento gástrico prolongando a saciedade e comunica ao cérebro a sensação de satisfação.
- O GIP potencializa a liberação de insulina estimulada pelo GLP-1 e atua em receptores cerebrais ligados ao apetite. Ele também age diretamente no tecido adiposo, melhorando a forma como as células de gordura captam e armazenam energia, o que ajuda a explicar por que a ação combinada supera a de um agonista isolado.
Esse mecanismo glicose-dependente é o que separa a tirzepatida da insulina aplicada diretamente. Por isso, recorrer à insulina para emagrecer não faz sentido fisiológico e pode ser perigoso.
Na prática, o resultado dessa ação combinada é menos fome, maior saciedade com porções menores, melhor controle da glicemia e perda de gordura corporal de forma gradual. O medicamento não substitui hábitos alimentares saudáveis, mas cria as condições hormonais para que mudanças sejam mais sustentáveis.
Por que o mecanismo duplo faz diferença nos resultados
Os estudos clínicos ajudam a traduzir, na prática, o efeito da ação dupla da tirzepatida.
No SURMOUNT-1, que acompanhou mais de 2.500 pessoas sem diabetes por 72 semanas, a perda de peso variou conforme a dose: cerca de 16% com 5 mg; 21,4% com 10 mg; e 22,5% com 15 mg. Já o grupo que recebeu placebo (substância sem medicamento), a perda foi de apenas 2,4%.
Para quem tem diabetes tipo 2, os resultados vêm do SURMOUNT-2. Nesse estudo, a perda média chegou a 15,7% com 15 mg. Além disso, houve melhora importante no controle da glicose: a hemoglobina glicada caiu, em média, de 8% para 5,9%, sem registros de hipoglicemia grave.
Já o SURMOUNT-5 comparou diretamente a tirzepatida com a semaglutida em pessoas com obesidade. A tirzepatida levou a uma redução média de 20,2% do peso, contra 13,7% com semaglutida.
Para uma comparação mais detalhada entre os dois medicamentos, veja Wegovy ou Mounjaro: qual emagrece mais.
Dose maior não significa resultado melhor
Os números por dose ajudam a entender por que a escalada até o limite nem sempre compensa. Entre 10 mg e 15 mg, a diferença de perda de peso é de pouco mais de um ponto percentual, enquanto os efeitos colaterais aumentam junto com a dose. Ou seja, o ganho adicional é pequeno diante do custo de tolerância.
É por isso que a dose ideal não é a mais alta, e sim a maior que a pessoa tolera bem. Quem define esse ponto é o médico, com base na resposta individual ao longo do tratamento, e nem todo paciente precisa chegar aos 15 mg.
Isso significa que ajuste será sempre gradual, respeitando o ritmo e objetivos do paciente. Para saber mais sobre essa graduação de doses, leia o artigo sobre a dose inicial de Mounjaro.
Efeitos colaterais: o que esperar
Os efeitos colaterais são principalmente gastrointestinais e mais frequentes nas primeiras semanas de tratamento ou após aumento de dose. Sendo náusea, diarreia, constipação e desconforto abdominal são os mais relatados.
Porém, vale ressaltar que a maioria das pessoas, esses efeitos diminuem com a adaptação ao medicamento e são mais intensos logo depois de cada aumento de dose.
Efeitos colaterais raros
Entre os efeitos raros mas sérios, a pancreatite é o mais citado. Nos estudos SURMOUNT, ela ocorreu em 0,21% dos participantes tratados com tirzepatida, contra 0,24% no grupo placebo, ou seja, com frequência semelhante nos dois grupos.
Isso não elimina a necessidade de atenção, porque saber reconhecer o quadro cedo muda o desfecho: dor abdominal intensa que irradia para as costas, especialmente acompanhada de vômitos persistentes, exige atendimento médico imediato.
Quem não deve usar o Mounjaro
O medicamento é contraindicado na gestação e na amamentação, para quem tem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide e para portadores de síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2.
Histórico de pancreatite é caso diferente. Ele não impede o tratamento, mas pede avaliação individualizada, em que o médico pondera a causa do episódio anterior e os fatores de risco atuais.
Acompanhamento clínico: parte essencial do resultado
O Mounjaro é um medicamento potente, mas os resultados dos estudos não foram obtidos com o medicamento sozinho.
O SURMOUNT-1 combinou tirzepatida com acompanhamento médico regular, orientação nutricional e suporte contínuo ao longo das 72 semanas. Replicar esse contexto no tratamento real é o que aproxima os resultados individuais dos números dos estudos.
Na prática, isso significa consultas periódicas para monitorar o peso, ajustar a dose conforme a tolerância e avaliar as comorbidades que motivaram o tratamento.
Além disso, colocar práticas de musculação na sua rotina e buscar uma orientação nutricional para cuidar da fome emocional e aproveitar da nova maneira de lidar com a fome para construir novos hábitos, não são conselho banais, são estratégias com bade na ciência.
É também nesse acompanhamento que se manejam os efeitos colaterais, se revisa o protocolo quando a perda estaciona e se planeja, quando chegar o momento, a saída gradual do medicamento. Alterar a dose por conta própria ou interromper de forma abrupta compromete tanto a segurança quanto os resultados.
O que lembrar
- O Mounjaro age em dois receptores hormonais ao mesmo tempo, GIP e GLP-1, o que o diferencia da semaglutida e explica os resultados superiores nos estudos comparativos.
- No SURMOUNT-1, a perda média foi de 16,0% na dose de 5 mg, 21,4% na de 10 mg e 22,5% na de 15 mg, contra 2,4% no placebo.
- Na comparação direta do SURMOUNT-5, a tirzepatida alcançou 20,2% de perda contra 13,7% da semaglutida.
- A Anvisa aprovou o medicamento para diabetes tipo 2 em setembro de 2023 e para obesidade e sobrepeso com comorbidades em junho de 2025.
- A tirzepatida não substitui hábitos saudáveis, mas restaura sinais hormonais que facilitam o controle da fome e da glicemia.
- O tratamento exige prescrição médica, escalonamento gradual de doses e acompanhamento clínico e nutricional.
- Interromper sem planejamento leva a reganho: no SURMOUNT-4, quem trocou o medicamento por placebo recuperou 14% do peso em um ano, enquanto quem seguiu no tratamento perdeu 5,5% a mais.



