
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Em fevereiro de 2026, a Anvisa aprovou o Wegovy também para a redução do risco de eventos cardiovasculares maiores, como infarto e AVC. É uma virada importante, que mostra como os efeitos positivos da semaglutida vão muito além da balança.
Mas essa aprovação não vale para todo mundo. Ela se aplica a um perfil específico de pacientes, se baseia em estudos robustos e levanta perguntas que a medicina ainda está tentando responder. Vamos olhar com calma para cada parte dessa história.
O que a Anvisa aprovou (e para quem a indicação vale)
Por muito tempo, agonistas de GLP-1 como a semaglutida foram tratados como ferramentas de dois territórios: controle de glicemia ou perda de peso.
A decisão da Anvisa em fevereiro de 2026 coloca a semaglutida formalmente num terceiro, a proteção do coração. É a primeira vez que a agência regulatória brasileira reconhece esse papel para o Wegovy.
Dito isso, a indicação é restrita. Ela se aplica a adultos com doença cardiovascular já estabelecida (histórico de infarto, AVC ou doença arterial periférica) que também tenham obesidade ou sobrepeso.
Além disso, o uso precisa estar associado a dieta hipocalórica e atividade física. Atenção a esse ponto: não se trata de prevenção primária, e quem não tem doença cardíaca prévia não está contemplado nessa aprovação.
E o contexto brasileiro dá peso à mudança: cerca de 400 mil brasileiros morrem por ano de infarto ou AVC, segundo dados citados pela própria Anvisa. Qualquer ferramenta que reduza esse número merece atenção.
O que os estudos realmente mostraram
Decisões regulatórias desse porte não se baseiam em hipóteses promissoras nem em resultados de laboratório. Elas exigem ensaios clínicos grandes, longos e bem desenhados, com desfechos duros: morte, infarto, AVC.
A aprovação da Anvisa se apoia principalmente em dois desses estudos, e vale conhecer cada um, porque os números contam uma história que não é óbvia.
O estudo SELECT: semaglutida em pacientes sem diabetes
Antes do SELECT, a semaglutida já havia mostrado benefícios metabólicos consistentes. Mas ninguém sabia se eles se traduziam em menos infartos e AVCs, especificamente em pessoas sem diabetes. Era essa a pergunta que o estudo se propôs a responder.
O SELECT acompanhou 17.604 adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida por cerca de 40 meses. Nenhum tinha diabetes. Todos receberam semaglutida subcutânea ou placebo, sempre em adição ao tratamento padrão com estatinas.
O resultado principal foi uma redução de 20% nos eventos cardiovasculares maiores (morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal). Para dar perspectiva, essa magnitude de efeito se aproxima do que se observa com estatinas em populações de alto risco.
Efeito acontece no início do tratamento
A perda média de peso foi de 9,4%. Mas um dos achados que mais chamou atenção veio de análises do estudo SELECT: a redução de eventos cardiovasculares já era observada nos primeiros meses de tratamento, antes de uma perda de peso expressiva.
Além disso, uma análise pré-especificada do SELECT publicada no The Lancet avaliou separadamente os pacientes com insuficiência cardíaca e encontrou redução de 28% em eventos cardiovasculares nesse subgrupo, o que amplia a relevância dos dados para além do perfil que normalmente se associa a medicamentos para obesidade.
O estudo SOUL: semaglutida oral e proteção cardiovascular
Até 2025, todos os dados de benefício cardiovascular vinham de formulações injetáveis, o que levantava uma dúvida legítima: o comprimido de semaglutida teria o mesmo efeito?
O estudo SOUL, publicado no New England Journal of Medicine em 2025, respondeu a essa pergunta. Foram 9.650 pacientes com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica ou doença renal crônica, acompanhados por quase quatro anos.
O resultado foi uma redução de 14% nos eventos cardiovasculares maiores com a semaglutida oral versus placebo. É o primeiro agonista de GLP-1 em comprimido a demonstrar benefício cardiovascular em um grande ensaio clínico.
E isso importa na prática, porque há pacientes que evitam injeções, e a cadeia de frio que a versão injetável exige nem sempre é acessível em todas as regiões do país.
O que ainda não foi testado
Nem o SELECT nem o SOUL avaliaram prevenção primária, já que todos os participantes já tinham doença cardiovascular ou renal.
Também não existe, até hoje, uma comparação direta entre a semaglutida e outros agonistas de GLP-1, como a tirzepatida ou a liraglutida, para esse desfecho específico.
O benefício comprovado em um perfil de paciente não pode ser automaticamente estendido a populações diferentes.
A semaglutida protege o coração mesmo sem perda de peso?
Essa é talvez a pergunta mais fascinante que os dados levantam. A explicação intuitiva seria simples: a obesidade é fator de risco, o paciente emagrece com a semaglutida, o risco cai. Lógico, direto, e incompleto.
Uma análise pré-especificada do SELECT, publicada no The Lancet em 2025, investigou exatamente isso. O achado: a quantidade de peso perdida nas primeiras 20 semanas não previu o benefício cardiovascular que veio depois.
Os pesquisadores perceberam que a diminuição da circunferência abdominal (sinal de redução da gordura visceral) ajudou a explicar parte do benefício, mas respondeu por apenas cerca de 33% do efeito total.
Emagrecer contribui, mas não explica tudo
Os dados indicam que a semaglutida também pode agir diretamente no sistema cardiovascular, reduzindo a inflamação dos vasos, melhorando a saúde da parede das artérias, estabilizando placas de gordura, diminuindo a proteína C-reativa (um marcador inflamatório) e reduzindo levemente a pressão arterial.
No SELECT, a queda da proteína C-reativa foi semelhante à observada com estatinas, e a pressão arterial caiu 3,3 mmHg, mais do que seria esperado apenas pela perda de peso.
Além disso, uma meta-análise publicada no International Journal of Obesity em 2025, reunindo dados de múltiplos ensaios, reforçou a consistência desse perfil: os efeitos cardiovasculares favoráveis parecem ir além do que a redução de gordura sozinha explicaria.
É por isso que muitos pesquisadores passaram a classificar a semaglutida como um modificador de doença cardiometabólica, e não apenas como medicamento para emagrecimento.
Quem se beneficia na prática com essa aprovação
Toda aprovação regulatória levanta uma pergunta inevitável: e eu, me encaixo nisso? A semaglutida gera um entusiasmo enorme nas redes sociais, e é natural que a notícia de proteção cardiovascular amplie ainda mais esse interesse. Mas os limites da evidência precisam ser respeitados.
A mudança afeta um grupo definido: pessoas com doença cardiovascular já diagnosticada que também convivem com obesidade ou sobrepeso. Para esses pacientes, a semaglutida passa a ter respaldo formal como estratégia complementar de redução de risco, sempre junto ao tratamento padrão.
Para quem utiliza a semaglutida com outros objetivos, sem doença cardiovascular prévia, a indicação formal não mudou, e não há evidência que permita extrapolar automaticamente esse benefício.
Um impacto prático que já começa a se desenhar é a ampliação do diálogo entre especialidades, já que a prescrição tende a envolver de forma mais explícita o cardiologista, além do endocrinologista ou clínico.
E com a submissão do Wegovy oral à Anvisa, também anunciada em fevereiro de 2026, a perspectiva de acessar essa proteção em formato de comprimido pode tornar o tratamento viável para mais pacientes no futuro.
O que lembrar:
- Em fevereiro de 2026, a Anvisa aprovou o Wegovy também para reduzir o risco de infarto e AVC, em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso.
- A indicação é restrita: não vale para prevenção primária, ou seja, para quem não tem doença cardíaca prévia.
- No SELECT (17.604 pacientes sem diabetes), a semaglutida reduziu em 20% os eventos cardiovasculares maiores. No SOUL, a versão oral reduziu em 14%.
- A proteção começou antes do emagrecimento expressivo, e a perda de peso explica só cerca de 33% do efeito. O restante vem de ações diretas no sistema cardiovascular.
- A semaglutida é terapia complementar, não substitui estatina nem anti-hipertensivo. A decisão é sempre médica e individualizada.


