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Efeitos colaterais das canetas emagrecedoras: do comum ao grave

O que é comum e passageiro, o que é raro e o que, de fato, exige atenção imediata.

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Aprovado por:

Tima Clínico Voy

Escrito com base em estudos científicos
Tempo de leitura: 5 min
Atualizado em 16 de julho de 2026
Aviso Importante:

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde. ​‍

Os efeitos colaterais das canetas emagrecedoras se dividem em três níveis bem distintos de gravidade. Os mais comuns são gastrointestinais, como náusea, diarreia, vômito e constipação, e costumam ser passageiros, ligados diretamente ao mecanismo de ação do medicamento.

Em um segundo nível estão os efeitos menos frequentes, como cálculos na vesícula e leve aumento da frequência cardíaca. Eles pedem acompanhamento, mas raramente evoluem para quadros graves.

Já os efeitos raros, como a pancreatite, exigem atenção imediata diante de sinais específicos, pois podem representar risco real à saúde.

O problema é que, nas redes sociais, esses níveis costumam aparecer misturados. Relatos de eventos raros e graves dividem espaço com desconfortos comuns e transitórios, como se tivessem o mesmo peso.

Este texto organiza essas diferenças com base em estudos clínicos, separando o que é esperado do que exige maior atenção.

Por que as canetas causam efeitos colaterais

Entender por que os efeitos colaterais acontecem é, na prática, entender como esses medicamentos funcionam no organismo.

As chamadas canetas emagrecedoras, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy), a tirzepatida (Mounjaro) e a liraglutida (Saxenda), pertencem à classe dos agonistas do receptor GLP-1. Elas imitam a ação de um hormônio intestinal que regula o apetite, aumenta a saciedade e desacelera o esvaziamento do estômago.

Esse mesmo mecanismo que prolonga a sensação de estômago cheio é o que leva aos efeitos mais comuns, como náusea, sensação de plenitude e desconforto digestivo.

Na prática, isso significa que os efeitos gastrointestinais não são um defeito do medicamento, mas uma consequência direta do seu funcionamento. Por isso, tendem a aparecer com mais intensidade no início do tratamento e diminuem à medida que o corpo se adapta.

Efeitos comuns: o que esperar no início

Cerca de 40% das pessoas em uso de semaglutida relatam algum sintoma gastrointestinal, segundo as revisões mais clínicas. A náusea é o mais frequente, seguida de diarreia, vômito e constipação. Mas a intensidade desses efeitos varia conforme o medicamento e a dose.

Na tirzepatida do Mounjaro, a náusea foi relatada por cerca de 25% das pessoas na dose inicial de 5 mg e por volta de 31% a 33% nas doses mais altas, no SURMOUNT-1.

Na semaglutida 2,4 mg do Wegovy, os índices costumam ser ainda maiores. Em todos os casos, os sintomas são mais intensos logo após cada aumento de dose e tendem a diminuir com a adaptação.

Esses quatro sintomas respondem pela maioria das queixas, sobretudo nas primeiras semanas e sempre que a dose sobe. A tendência é que melhorem à medida que o organismo se adapta. Ainda assim, o desconforto é a principal razão pela qual muita gente pensa em abandonar o tratamento cedo, antes de ver resultado.

E aqui entra um ponto que costuma passar despercebido: a intensidade desses efeitos não depende só do medicamento. Doses aumentadas rápido demais, sem acompanhamento próximo durante o escalonamento, tornam os sintomas mais intensos e são uma causa concreta de abandono que poderia ser evitada.

Efeitos menos frequentes que merecem atenção

Alguns efeitos não estão no topo das listas, mas aparecem nos estudos com frequência suficiente para merecerem acompanhamento. O principal é o risco de cálculos na vesícula (colelitíase).

Um estudo com quase 27 mil participantes mostrou que a semaglutida eleva em mais de 2,6 vezes o risco de distúrbios biliares em comparação ao placebo. A tirzepatida, curiosamente, não mostrou o mesmo padrão nesse quesito.

Isso não significa que todo usuário vai desenvolver cálculos, mas é uma razão legítima para o médico monitorar, especialmente em quem já tem predisposição. A perda de peso acelerada, por si só, já é fator de risco para cálculos, o que se soma ao efeito do medicamento sobre a vesícula.

Há ainda relatos de leve aumento da frequência cardíaca em repouso, de boca seca e de alterações no paladar, essas últimas mais associadas à tirzepatida.

Reações no local da injeção, como vermelhidão e coceira leve, são incomuns e passageiras. Nenhum desses efeitos costuma ser grave sozinho, mas todos merecem ser comunicados ao médico que acompanha o tratamento.

Efeitos raros e sinais de alerta graves

O efeito raro mais discutido é a pancreatite. Numa análise consolidada de estudos com semaglutida, a proporção de casos ficou em torno de 0,2%, predominantemente leves, sem diferença relevante em relação ao placebo.

O panorama completo sobre pancreatite e GLP-1 está em canetas emagrecedoras e pancreatite.

O que muda o desfecho é reconhecer o sinal a tempo: dor abdominal intensa e persistente, especialmente irradiando para as costas, exige avaliação médica urgente e não deve ser observada em casa.

Obstrução intestinal e laceração do esôfago por vômito muito intenso também figuram entre os eventos sérios documentados. São raros, mas reais, e por isso vômitos que impedem a ingestão de líquidos também pedem atendimento.

Atenção antes de cirurgias

Como esses medicamentos retardam o esvaziamento gástrico, quem os usa tem risco aumentado de regurgitação e aspiração durante a anestesia, mesmo com o jejum correto.

A Sociedade Americana de Anestesiologistas recomenda suspender os GLP-1 de ação prolongada com pelo menos uma semana de antecedência, embora o tempo ideal ainda seja debatido. A Anvisa emitiu alerta semelhante em setembro de 2024.

Na prática, qualquer pessoa que use canetas emagrecedoras e vá passar por cirurgia deve informar o anestesista com antecedência, sem esperar ser perguntada. É uma informação que muda a conduta da equipe.

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Canetas emagrecedoras causam câncer de tireoide ou de pâncreas?

O receio de câncer de tireoide surgiu de estudos em roedores, nos quais doses elevadas de GLP-1 estimularam o crescimento de células C da tireoide. A partir daí, a bula de todos os medicamentos da classe passou a contraindicar o uso para quem tem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou da síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2. Essa restrição vale mesmo para quem já está em remissão, por precaução.

Para o restante da população, o cenário é diferente. As meta-análises em humanos, com dezenas de milhares de participantes, não demonstraram aumento significativo de risco de câncer de tireoide associado à semaglutida ou à tirzepatida. Os casos isolados nos ensaios foram raros e sem diferença estatística em relação ao placebo. O detalhamento das contraindicações está em contraindicações dos medicamentos GLP-1.

Para o pâncreas, a lógica é parecida. Embora haja elevação de enzimas pancreáticas com o uso de GLP-1, as revisões sistemáticas não identificaram diferença significativa no risco de pancreatite aguda ou câncer de pâncreas em relação ao placebo. A ciência ainda acompanha esses medicamentos em estudos de longo prazo, mas há uma distância importante entre “risco não confirmado em humanos” e “causa câncer”.

Quem não deve usar as canetas emagrecedoras

Um histórico de saúde específico pode mudar a equação. Em alguns casos, uma condição prévia contraindica de forma absoluta o medicamento; em outros, apenas exige cuidado redobrado. As contraindicações absolutas são:

  • Histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2.
  • Gestação, amamentação ou tentativa de engravidar, por riscos potenciais ao feto.
  • Diabetes tipo 1 e cetoacidose diabética.
  • Alergia à substância ou a componentes da fórmula.

Histórico de pancreatite, como já mencionado, entra como precaução e não como contraindicação absoluta, com a decisão dependendo da causa do episódio anterior. Pacientes com histórico oncológico também precisam de avaliação caso a caso, sobretudo em tratamento ativo, porque os efeitos gastrointestinais das canetas podem se somar aos da quimioterapia. Em todos esses cenários, a decisão de iniciar, manter ou interromper depende do histórico completo e não se faz sem consulta médica.

Como o acompanhamento reduz os efeitos colaterais

Os estudos com menor índice de abandono por efeitos colaterais têm algo em comum: mais contato médico durante a fase de adaptação. Não é coincidência. O escalonamento gradual de dose existe para dar tempo ao organismo, e quando esse aumento é ajustado à tolerância de cada pessoa, a intensidade dos sintomas cai de forma considerável.

Ajustes na alimentação somam a esse efeito. Refeições menores e menos gordurosas, com boa hidratação, estão consistentemente associadas a menos sintomas durante a adaptação. O que nunca deve acontecer é o ajuste de dose por conta própria, a interrupção abrupta sem orientação ou o uso a partir de receita de terceiros. O perfil de segurança desses medicamentos é bem estabelecido, mas pressupõe uso supervisionado.

O que lembrar

  • Os efeitos comuns são gastrointestinais (náusea, diarreia, vômito, constipação), passageiros e ligados ao modo de ação do medicamento. Cerca de 40% das pessoas relatam algum deles.
  • A semaglutida aumenta em mais de 2,6 vezes o risco de cálculos na vesícula; a tirzepatida não mostrou o mesmo padrão.
  • A pancreatite é rara (em torno de 0,2%, semelhante ao placebo). Dor abdominal intensa que irradia para as costas exige atendimento imediato.
  • Não há associação causal confirmada com câncer de tireoide ou de pâncreas em humanos. A contraindicação vale para quem tem carcinoma medular de tireoide ou NEM2.
  • Histórico de pancreatite é precaução, não contraindicação absoluta.
  • Quem vai passar por cirurgia deve avisar o anestesista, porque o esvaziamento gástrico mais lento aumenta o risco de aspiração.
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Perguntas Frequentes

Referências
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Gomez-Peralta F, et al. Glucagon-like Receptor-1 agonists for obesity: Weight loss outcomes, tolerability, side effects, and risks. Obesity Medicinescribble-underline. 2024. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11404059/

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Nagendra L, et al. Assessment of thyroid carcinogenic risk and safety profile of GLP1-RA semaglutide therapy for diabetes mellitus and obesity: a systematic literature review. Int J Mol Sciscribble-underline. 2024. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11050669/

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Gastrointestinal safety of semaglutide and tirzepatide vs. placebo in obese individuals without diabetes: a systematic review and meta-analysis. Annals of Saudi Medicinescribble-underline. 2025. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12542916/

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Exploring the Side Effects of GLP-1 Receptor Agonists: To Ensure Its Optimal Positioning. PMC. 2025. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12270588/

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A.C. Camargo Cancer Center. Canetas emagrecedoras e câncer de tireoide: entenda quando o uso é contraindicado. Fev/2026. https://accamargo.org.br/sobre-o-cancer/noticias/canetas-emagrecedoras-e-cancer-de-tireoide-entenda-quando-o-uso-e